A Bíblia

A Bíblia

Frei Silva António, OFMCAP

INTRODUÇÃO

A Bíblia no seu todo é a revelação dos mistérios de Deus, que manifestam o plano de Deus sobre a humanidade e que se completam na vinda de Jesus Cristo. Entretanto, desde o início, Deus esteve ao lado do homem, caminhando com ele na história, numa relação íntima e interpessoal; procurando comunicar ao homem o seu desígnio salvífico.

A Carta aos Hebreus, no início mostra-nos como desde o princípio, Deus comunicou-se com o seu povo através dos profetas, e como se comunica nestes últimos dias através do Seu Filho (Hb 1, 1-2).

Procuremos então entender, mesmo que de forma mínima, aquilo que é o manancial da nossa salvação.

O QUE É A BÍBLIA?

Bíblia é uma palavra grega que significa Livros. Ela é uma biblioteca de 73 livros de épocas, autores e estilos diferentes. Ela tem dois pontos fundamentais: mostrar quem é Deus e quem são os homens.

Quem é Deus. Não o que Deus é em si mesmo. Isso é um mistério, mas mostrar o que Deus é para os homens, e o projecto que Deus realiza na vida e na história: que todos tenham vida e liberdade.

Mostra também quem são os homens. Aí encontramos o que o homem tem de bom e o que tem de perverso: os tropeços, o egoísmo, a teimosia, etc.

COMO NASCEU?

A Bíblia nasceu no seio de um povo que vivia no Médio Oriente, junto do Mar Mediterrâneo. Esse lugar no tempo de Abraão chamava-se terra de Canaã, por causa dos cananeus que lá moravam. Com a chegada dos hebreus passou a chamar-se terra de Israel. Bem mais tarde toda a região recebeu o nome de Palestina.

A experiência desses povos e a sua história estiveram na base do nascimento da Bíblia. Ela, antes de ser escrita foi vivida, depois contada pelos pais aos filhos. Passou de geração em geração (Sl 44, 2; 78, 3-4; 145, 4; Ex 10, 2). Este período que durou aproximadamente 900 anos designa-se por período da Tradição Oral. A Bíblia começou a ser escrita durante o reinado de Salomão por volta do ano 950 a. C. O AT ficou pronto por volta do ano 50 a. C. e o NT no final do primeiro século.

LÍNGUAS – os originais dos livros bíblicos foram escritos em três línguas diferentes: hebraico, aramaico e grego. O Antigo Testamento, na sua maior parte foi escrito em hebraico. Alguns livros foram escritos em grego e trechos de Daniel e Esdras em aramaico. O NT foi todo escrito em grego.

O CENTRO DA BÍBLIA

Não é fácil trilhar um caminho que não é conhecido, e sem rastos. A Bíblia é como uma mata fechada e que se não se conhecer o caminho, facilmente nos perdemos. Deste modo precisamos encontrar o seu centro e o fio condutores: Aliança.

A aliança é um compromisso entre pessoas (ex. esposos). Neste caso entre Deus e homens. Quando lemos a Bíblia devemos estar atentos para perceber como ela conta a história da aliança entre os homens e Deus. Esta aliança nasce da escolha livre de Deus e da resposta livre do homem. Exprime-se através do AMOR, que gera uma vida nova em todos os sentidos.

JESUS CRISTO, CENTRO DA ALIANÇA

Já vimos que a aliança entre Deus e os homens é o fio condutor e o centro de toda a bíblia, tanto no AT como no NT. A aliança é um diálogo que se vai tornando cada vez mais próximo, numa troca mútua de palavras e de vida, onde se fala e se age em liberdade. Este diálogo entre Deus e o homem atinge o seu ponto mais alto na pessoa de Jesus Cristo, sendo Ele o eixo que liga, alimenta e ilumina todas as outras alianças existentes na Sagrada Escritura. Em Jesus os parceiros da aliança unem-se de maneira mais próxima e intima possível, por Ele ser Deus-e-Homem ao mesmo tempo.

O ANTIGO TESTAMENTO (AT)

A Bíblia divide-se em AT (46 livros) e NT (27 livros). Os dois Testamentos fazem um total de 73 livros.

A mesma palavra grega significa tanto ALIANÇA como TESTAMENTO.

O AT de que vamos falar agora, é a primeira parte da Bíblia e é uma colecção de livros que narram a história do povo da Bíblia, o povo que Deus escolheu para com ele fazer uma aliança, e foram escritos antes de Cristo (a. C.). Portanto, o AT é a história de um povo. Narra como ele surgiu, como viveu escravo no Egipto, como possui uma terra, como foi governado, quais as relações que teve com os outros povos, como estabeleceu as suas leis e a sua religião. Apresenta os seus costumes, a sua cultura, os seus conflitos, derrotas e esperanças.

Esta parte da Bíblia é a história desse povo em aliança com Deus. Nada para Israel está desligado do seu relacionamento com Deus. Entretanto, toda vida de Israel em todos os níveis tem a ver com a sua relação com Deus.

DIVISÃO DO AT

O AT é uma biblioteca de 46 livros, onde encontramos as experiencias individuais e colectivas, do povo de Israel com Deus.

Os judeus dividem a Bíblia em três partes:

A Lei (torah): o Pentateuco – de Génesis a Deuternómio

Os Profetas (nebiim): anteriores (Josué a Reis) e posteriores (Isaías, Jeremias, Ezequiel e os 12 profetas menores).

Escritos (kethubim): os livros sapiênciais e alguns históricos.

Os católicos dividiram a partir do século XIII, o AT de acordo com o carácter geral dos livros bíblicos. Assim temos: o Pentateuco (5 livros), Históricos (16), Sapiênciais (7 livros) e Proféticos (18 livros).

1. O Pentateuco: compreende os cinco primeiros livros da Bíblia. Estes livros falam da criação do mundo e do homem, a formação do povo de Israel, a sua libertação e condução através do deserto (Moisés) para uma terra (Cannã), e as normas básicas (Ex 20) que devem reger uma sociedade verdadeira, justa e fraterna.

2. Históricos: são 16 (De Josué a 2 Macabeus). Narram a história da formação e da vida do povo de Israel, na terra prometida e no exílio: as suas grandezas e lutas, e as consequências práticas da sua fidelidade ou infidelidade ao Deus da Aliança.

Este grupo pode ser dividido em três subgrupos:

a) Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis – mostram que a história de Israel depende da atitude que o povo toma na aliança com Deus[1].

b) 1 e 2 Crónicas, Esdras, Neemias, 1 e 2 Macabeus – dão as normas básicas para a sobrevivência e a organização do povo de Deus depois do exílio da Babilónia.

c) Rute, Tobias, Judite, Ester – mais que históricos – apresentam-se como modelos de vivência da fé diante de situações difíceis, quer a nível pessoal (Rute, Tobias), quer nacional (Judite e Ester).

3. Sapiênciais ou poéticos: constituem o grupo mais reduzido, são apenas sete. Apresentam a reflexão de Israel a partir das experiencias concretas da vida. Neles encontramos expressões de sabedoria, poesias, cantos, orações, hinos e provérbios, através dos quais o povo exprime os seus sentimentos.

4. Livros Proféticos: Formam um grupo de 18 livros, se contarmos com os livros de Baruc e Lamentações, que por vezes aparecem incluídos no livro de Jeremias. Dividem-se em profetas maiores e menores, não pela importância, mas por causa do tamanho dos seus livros.

Os profetas maiores são: Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel

Os livros proféticos são uma crítica profunda do presente, para abrir caminho para o futuro. Antes do exílio, os profetas criticaram as estruturas políticas, económicas, sociais e religiosas injustas e opressoras, exigindo mudanças radicais para que se instaurasse uma sociedade segundo a justiça e o direito. Depois o exílio, eles foram anunciadores da consolação e esperança no Senhor, para que o povo de Israel reconstruísse a sua história, conforme o projecto da aliança com Deus.

O NOVO TESTAMENTO (NT)

O NT ou Nova Aliança é a parte da Bíblia onde encontramos o anúncio da pessoa de Jesus Cristo. A sua mensagem central é o próprio Filho de Deus, que veio ao mundo para estabelecer a aliança definitiva entre Deus e os homens. Jesus é a expressão máxima dessa aliança: Ele mostra que Deus é Pai para os homens, e como os homens devem viver para se tornarem filhos de Deus. Através da sua Palavra e acção Jesus inaugurou esta aliança, ou seja, o Reino de Deus na sua plenitude.

Essa aliança de Deus com os homens e o seu Reino, já não são exclusivos a um povo exclusivo (Israel, como no AT), mas são abertos a todos os homens de todo o tempo e de todos os lugares. Em Jesus Deus reuniu toda humanidade como uma família em que todos são chamados a viver como irmãos.

Os livros do NT nasceram no seio das primeiras comunidades cristãs. Como os apóstolos eram desprovidos de quaisquer meios técnicos para registar tudo o que viram e ouviram de Jesus, e como Ele não deixou nada escrito, eles transmitiam através da pregação, cartas e bilhetes, o que Jesus fez e ensinou. E exortavam as comunidades a continuarem a missão. Foram estas cartas e pregações que mais tarde começaram a ser escritas naquelas comunidades, as quais começaram a chamar: EVANGELHO.

DIVISÃO DO NT

O NT é um conjunto formado por 27 livros, agrupados conforme temas e estilos diferentes: Evangelhos[2], Actos dos Apóstolos, Cartas (Epístolas) e Apocalipse. Nesse conjunto encontramos o anúncio da pessoa de Jesus, e as consequências que esse anúncio trouxe, sobretudo para os seus seguidores.

1. Evangelhos: São quatro[3] (Mateus, Marcos, Lucas e João). Os Evangelhos reflectem aquilo que as diferentes comunidades guardaram sobre Jesus. São anúncio de Jesus e escritos no ambiente de comunidades diferentes. Por isso, tratam da pessoa, das palavras e das acções de Jesus de modo ao mesmo tempo semelhante e diferente. Os Evangelhos apareceram entre 30 e 70 anos depois da morte de Jesus. A sua intenção não era em primeiro lugar fazer uma biografia, uma história de Jesus, mas sim esclarecer e manter vivo nas comunidades o compromisso com Jesus, recordando e adaptando as suas palavras, a sua actividade e o desfecho da sua vida (morte e ressurreição).

2. Actos dos Apóstolos. O livro dos Actos dos Apóstolos é a segunda obra do evangelista Lucas[4]. Neste livro S. Lucas apresenta-nos a actividade dos apóstolos como uma grande viagem que vai de Jerusalém até Roma. Este livro resume-se em Act 1, 8. Este é portanto, o livro do testemunho, com quatro pontos importantes: o querigma[5], a catequese, a vida das comunidades e a missão. Fala-nos também a cerca da organização e das dificuldades das primeiras comunidade cristãs. As suas personagens principais são Pedro e Paulo.

3. Cartas

a) Cartas Paulinas – são correspondências enviadas a diversas comunidades cristãs. Estas cartas são respostas dadas a situações concretas e problemas específicos das primeiras comunidades cristãs, espalhadas em terras pagãs. São no total 13; dentre as quais duas são pastorais (a Timóteo e a Tito). Assim chamadas por serem dirigidas aos líderes ou pastores das comunidades.

b) Carta aos Hebreus – esta é de autor desconhecido. Faz uma reflexão sobre Jesus Cristo, o grande Sacerdote, mediador entre Deus e o povo.

c) Cartas Católicas – são sete (7)[6]. A palavra católica significa universal. São assim chamadas, porque não foram dirigidas a uma comunidade ou líder particulares, mas sim a toda a Igreja.

4. Apocalipse. É o último livro da Bíblia. Do grego significa revelação. É um livro que trata da presença de Jesus Cristo na história e na vida das comunidades em épocas de crise e de perseguição. É o livro de Jesus Cristo (Ap 1, 1), Senhor e Dono da história. O Apocalipse esboça as linhas de um testemunho cristão para todos os tempos e lugares. É um dos mais difíceis livros da bíblia de se compreender, por causa da sua linguagem cheia de símbolos, imagens, figuras, visões, etc.[7].

COMO ENCONTRAR UMA PASSAGEM NA BÍBLIA[8]?

Os livros da Bíblia são divididos em capítulos, e os capítulos são divididos em versículos. Os capítulos são indicados com números grandes, e os versículos com números pequenos.

Para citar uma passagem, coloca-se a abreviatura do livro, seguido pelo número que indica o capítulo e o versículo que se deve ler.

- A vírgula separa o capítulo do versículo (Ex 20, 1).

- O travessão pode indicar uma sequência de versículos ou de capítulos (Dt 15, 1-8 ou Gn 10, 6 – 11, 4).

- O ponto separa versículos salteados (Ex 20, 1-10. 12-17).

- O ponto e vírgula separa tanto de capítulo a capítulo do mesmo livro como um livro ao outro (Is 9, 1; 53, 3-4; Jr 20, 7; Ez 33, 11).

SETE CHAVES

A Palavra de Deus é encontrada na Bíblia por meio de sete chaves:

1. Pés bem assentem na realidade. 2. Olhos bem abertos. 3. Ouvidos atentos, em alerta. 4. Coração livre para amar. 5. Boca para anunciar e denunciar aquilo que os olhos viram, os ouvidos ouviram e o coração sentiu. 6. Cabeça para pensar. Inteligência para meditar, estudar e procurar respostas para as nossas dúvidas. 7. Joelhos dobrados em oração.

CURIOSIDADES BÍBLICAS

1. A divisão dos livros da Bíblia em capítulos é da autoria do inglês Estephen Langton, arcebispo de Cantuária, e foi realizada no ano de 1214. Já a divisão dos capítulos em versículos foi feita, em definitivo, em 1551, pelo tipógrafo Roberto Stefano.

2. A Bíblia tem 1.328 capítulos, 40.030 versículos, 773.692 palavras, 3.566.480 letras. A palavra Yahveh, o nome sagrado de Deus, aparece 6.855 vezes. O salmo 117 está precisamente no meio da Bíblia.

3. A Bíblia Protestante tem 66 livros, 7 a menos que a Bíblia Católica. Os livros de Baruc, Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, 1º e 2º Macabeus e parte dos livros de Ester e Daniel fazem parte da Bíblia Católica mas não da Bíblia Protestante.

BIBLIOGRAFIA

- BÍBLIA SAGRADA AFRICANA, Edição Portuguesa, Paulinas, Maputo, 2004.

- BÍBLIA SAGRADA, PARA O TERCEIRO MILÉNIO DA ENCARNAÇÃO. Difusora Bíblica, Franciscanos Capuchinhos, Lisboa, 2002.

- FARIA, Jacir de Freitas – PROFETAS E PROFETISAS NA BÍBLIA. Colecções Teologias bíblicas 5. Edições Paulinas. São Paulo, 2006.

- MOREIRA, Gilvander Luís – LUCAS E ACTOS. Colecções Teologias bíblicas 12. Edições Paulinas. São Paulo, 2004.

- PULGA, Rosana – BÊ – Á – BÁ DA BÍBIA. 4ª ed., edições Paulinas. São Paulo, 1998.

- STORNIOLO, IVO – BALANCIN, Euclides – CONHECER A BÍBLIA. 2ª Ed., Edições Paulinas, São Paulo, 1986.


[1] Se o povo for fiel à aliança, Deus concede-lhe a bênção, que se traduz no dom da terra e na prosperidade. Se o povo é infiel, atrai para si a maldição, que se concretiza como fracasso e perda da terra.

[2] Evangelho é uma palavra grega e significa BOA NOVA, BOA NOTÍCIA.

[3] Cada um dos Evangelhos apresenta Jesus segundo a sua perspectiva. Assim, MATEUS apresenta Jesus como Emanuel, o Deus connosco (Mt 1, 23; 28, 20); Jesus é o Messias, em Quem se realizam as promessas feitas no AT. MARCOS procura responder a questão: Quem é Jesus? Porém, ele limita-se à narração, para que o leitor chegue por si mesmo a resposta de que, Jesus é o Messias, o Filho de Deus (Mc 1, 1; 8, 29; 14, 61; 15, 39). LUCAS apresenta o caminho de Jesus como um caminho que se realiza na história. Por isso, para o percorrer, o Filho do Altíssimo (Lc 1, 32) fez-se homem em Jesus de Nazaré (Lc 2, 1-7), trazendo na história o projecto da salvação feita por Deus desde o Antigo Testamento (1, 68-70). Este caminho de Jesus de Galileia (Lc 4, 14ss) para Jerusalém (Lc 9, 51 – 19, 2Smilie: 8) tornou-se caminho da vida. JOÃO é uma espécie de meditação que procura despertar e alimentar a fé em Jesus Cristo, Filho de Deus, para que os homens tenham a vida em abundância (Jo 20, 30-31). Para João, Jesus é o enviado de Deus. O revelador do Pai. Nesse se manifesta o amor de Deus aos homens.

[4] No Evangelho estão narradas a vida e a actividade de Jesus como uma grande viagem da galileia até Jerusalém, centro político-religioso do judaísmo.

[5] Querigma é o primeiro anúncio, para provocar a conversão daqueles que não aceitaram ou daqueles que ainda não conhecem Jesus. Catequese é o aprofundamento na fé daqueles que já se converteram.

[6] Estas cartas são: Tiago, Judas, as duas de Pedro e as três de João.

[7] O autor (João) usou essa forma de linguagem porque se dirigia às comunidades cristãs que viviam no meio da perseguição romana no fim do século I.

[8] Na leitura da Bíblia não se citam páginas. Os leitores consultam e lêem a Bíblica através da citação do livro, capítulos e os versículos.

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